O Império do Meio contra-ataca (em inteligência
artificial)
- China lança mais uma IA, e Xi Jiping pede cooperação contra mau uso
por terroristas e em guerras
- Tecnologia pode rodar localmente, sem dependência de infraestrutura
americana
Os
últimos dias não foram bons para a liderança dos EUA em inteligência
artificial, e o Brasil teve um papel nisso
O
que aconteceu foi que a China conseguiu orquestrar um ataque
feroz à hegemonia dos Estados Unidos. A ofensiva aconteceu
simultaneamente em várias camadas na semana passada, com efeitos de mercado imediatos.
Além
de pressionar a Nasdaq, o preço das empresas de chips caiu 5,7% só na sexta
(acumulando 20% de queda desde o fim de junho). O tombo chegou a tirar a Nvidia
da posição de empresa mais valiosa do planeta.
O
blitzkrieg chinês avançou em três frentes. O primeiro foi o lançamento do novo
modelo de IA (inteligência artificial) chinês Kimi K3. De
pronto, ele foi ranqueado em primeiro lugar no ranking da Arena, ultrapassando
o Fable 5 da Anthropic e o GPT 5.6 Sol. No índice geral da Artificial Analysis
ele figura em terceiro, atrás apenas desses dois.
Um dado impactante é que se trata de um modelo de
IA aberto ("open weights"). Isso significa que pode rodar em
infraestrutura local, ser retreinado em português e especializado em aplicações
do agro, indústria, energia e outros campos estratégicos.
Tudo isso sem o risco
de interrupções geopolíticas repentinas e com controle sobre a
confidencialidade/privacidade dos dados.
O segundo front atacado pela China explica como o
lançamento de um modelo de IA derrubou empresas de chips. O Kimi K3 é otimizado
para rodar em hardware chinês na inferência, como os chips da Huawei. Além
disso, o modelo teria sido treinado parcialmente com chips chineses.
E vale lembrar: há pelo menos um modelo de
fronteira treinado 100% com chips chineses, o LongCat 2.0 da Meituan, algo
inconcebível 4 anos atrás. Em suma, a China quer disseminar seus modelos de
inteligência artificial de forma aberta e, na sequência, vender chips e a
infraestrutura para seu funcionamento.
Isso nos leva à terceira camada da ofensiva
chinesa, ocorrida na semana passada. O país lançou a iniciativa internacional
chamada Organização de Cooperação Mundial em Inteligência Artificial (WAICO).
Seu objetivo é gerir a IA a partir da visão expressa em discurso proferido
pessoalmente por Xi Jinping: "o desenvolvimento da IA não deve ser uma performance solo
de um único país, mas uma sinfonia de cooperação
internacional".
No mesmo evento, a Huawei exibiu seu novo produto
Atlas 950 SuperPod, um cluster de 1024 chips. Em suma, a China lançou um
organismo diplomático, um modelo de IA forte, chips e software que formam um
projeto industrial unificado.
O
Brasil aderiu imediatamente à WAICO, juntando-se à África do Sul, Cuba,
Indonésia, Malásia, Nicarágua, Rússia e Venezuela, em um total de 29 países. É
um contraponto ao grupo formado pelos EUA, chamado Pax Silica, que reúne
Alemanha, Argentina, Chile, Índia e Reino Unido, totalizando 30 países.
Dependendo
de onde se olhar no mundo, esses eventos tiveram repercussões distintas. Nos
EUA, há a acusação de que os modelos chineses são criados com base nos
americanos, por meio de "destilação". Nas Filipinas, a WAICO foi
chamada de "cavalo de Troia da dominância algorítmica chinesa para
coordenar países do Sul Global na ONU".
O
Vietnã (que já esteve em conflitos armados com os EUA e com a China) ficou
quieto e não faz parte de nenhum dos grupos. Em que parte do mundo você está?
RONALDO LEMOS | advogado, diretor do Instituto de Tecnologia
e Sociedade do Rio de Janeiro