Criança na rua é sinal de saúde
das cidades
- Brasil aparece no grupo de países com menor mobilidade infantil
independente
- Na Finlândia, criança vai a pé para a escola por liberdade; aqui,
por necessidade
Quer saber se uma cidade é saudável? Basta olhar
para uma única variável: se há crianças andando livremente pelas ruas,
sem a supervisão dos pais. Essa variável tem até nome técnico: "mobilidade
infantil independente" (em inglês, o acrônimo é CIM).
Um estudo clássico da Fundação Nuffield analisou o
tema de forma comparativa em 16 países. O estudo pesquisou 18 mil crianças e
seus pais para entender sua mobilidade.
Até hoje, é o maior esforço
internacional de mapear a questão. Os achados são tristes para o Brasil.
Os países foram divididos em três grupos: topo,
intermediário e inferior. No topo, aparece a Finlândia. Lá, aos sete anos a maioria das
crianças já anda ou pedala sozinha pelas ruas. Aos dez anos, já pegam transporte público sem supervisão dos
pais.
No grupo de alta mobilidade, está o Japão. Lá, 70% das crianças vão à escola a pé.
Outro dado que chama a atenção é a liberdade de circulação noturna. As crianças
japonesas saem sozinhas também à noite, inclusive no transporte público.
Há até um reality show da Netflix sobre o tema, chamado Crescidinhos. O programa acompanha crianças de
2 a 5 anos fazendo sua primeira andança sem a supervisão de adultos. Em um dos
episódios, uma garota de quatro anos pega um ônibus sozinha para visitar a mãe no
hospital.
O Brasil aparece no grupo de países com menor mobilidade
infantil independente. E vale notar: não é que não haja crianças nas ruas das
nossas cidades. Estudos brasileiros mostram que ir à pé para a escola e
circular pelas ruas é comum no Brasil. No entanto, essa prática acontece por
necessidade, não por escolha.
Quando uma criança finlandesa anda um quilômetro
para ir à escola, está exercendo sua liberdade. Já a maioria das crianças
brasileiras faz isso por razões inversas: por impossibilidade de escolha. Seja
porque não há transporte público disponível, seja porque estar na rua é a única
opção.
Para piorar, um estudo feito no Brasil por Cibele
Macêdo e colegas com 1.700 crianças de idade média de 11 anos mostrou um dado
preocupante. Brincar sozinho nas ruas, nos parques ou em espaços abertos está
diretamente relacionado ao bem-estar subjetivo das crianças.
Só que há uma
ressalva fundamental: quando a mobilidade é sinal de autonomia, o efeito é de
fato positivo. Quando é forçada por precariedade (a criança precisa se deslocar
sozinha porque não tem outra opção), o efeito no bem-estar subjetivo é negativo.
Esse é um achado que não aparece nos estudos europeus.
Diante disso, o que fazer? Os dois maiores inimigos
das crianças nas cidades são o trânsito e a segurança pública. É preciso
cuidar de ambos. Além disso, a criança autônoma precisa ser vista como um
indicador central de qualidade urbana, como foi feito com sucesso na Colômbia.
No Brasil, cidades como Fortaleza, Recife e Rio têm iniciativas como o
projeto Caminhos da Escola, que reforça a "andabilidade" no entorno
de algumas escolas municipais. O cardápio de medidas eficazes é vasto.
Inclui
as mais de 60 "play streets" de Londres, que fecham semanalmente algumas ruas
para brincadeiras e circulação infantil, a redução da velocidade para 30 km/h
em algumas vias, as bibliotecas-parque de Medellín e os superquarteirões
de Barcelona.
O que não dá é ficar do jeito que
está e aceitar que as cidades brasileiras sejam 100% inadequadas para crianças.
RONALDO LEMOS | advogado, diretor do Instituto de Tecnologia
e Sociedade do Rio de Janeiro