Medicina já debate se ciúme pode ser doença de
verdade
- Artigo defende criar diagnóstico específico para manifestação
obsessiva
- Passo seria arriscado no Brasil, com o aumento de casos de
feminicídio
A linguagem cotidiana já diz quase tudo quando se
fala que a pessoa tem um ciúme doentio: a escalada obsessiva dessa paixão
escura, tão comum, tem mesmo um quê de doença. Daí a aceitar que passe a fazer
parte do rol oficial de distúrbios mentais, bem, é outra história.
Dá o que pensar a pergunta lançada por dois psicólogos da Suécia em artigo de
opinião no Jama Psychiatry, um dos
periódicos da associação médica dos EUA: "O ciúme obsessivo tem lugar na
psiquiatria?"
David Mataix-Cols e Johan Åhlén, do Instituto Karolinska,
propõem que sim, seria útil contar com uma nova categoria de diagnóstico, algo
como transtorno de ciúme obsessivo, ou mórbido.
Primeira coisa que vem à cabeça: caso seja criado
um número CID para essa perturbação, poderia ela vir a ser empregada por
advogados de defesa como atenuante em casos de feminicídio?
Matei porque estava doidão,
literalmente louco de ciúme, e aqui está o médico para testemunhar que não
estou inventando.
Seriam os sucedâneos médicos da violenta emoção, da perda momentânea de razão e
da legítima defesa da honra que o direito tem banido da argumentação legal, sob
pressão da opinião pública enojada com a covardia machista. Nada como um laudo
para tirar o próprio da reta, a consagrada saidinha Bolsonaro.
Mulheres, claro, também podem manifestar ciúme doentio. Mas parece óbvio que
são os homens, na maioria dos casos, os que se atribuem a prerrogativa de
recorrer a agressões e violência letal. Estão aí as estatísticas
para provar.
Verdade que, ao pesar prós e contras do novo diagnóstico, Mataix-Cols e Åhlén
sequer cogitaram tal possibilidade. Não vivem no Brasil. Limitam-se a discutir
se teria cabimento patologizar comportamento tão comum, para não dizer
universal.
O busílis, argumentam, está em fixar critérios objetivos para estabelecer
quando essa paixão se torna excessiva, intrusiva, persistente e incontrolável,
dando margem a comportamentos compulsivos de vigilância, confrontação ou
agressão.
Com parâmetros para identificar os casos verdadeiramente patológicos,
prevenção e tratamento poderiam ser mais eficazes.
Para isso, defendem, é preciso fazer mais pesquisas. Estudo com um milhar de
suecos ciumentos, que teve Åhlén entre os autores, indicou que a obsessão
prejudica trabalho, lazer e relacionamentos, estando associada com abuso de
álcool. Por outro lado, histórico de ciúme em relacionamentos anteriores parece
tornar a pessoa mais propensa a buscar assistência psicológica.
Talvez esteja aí a chave da responsabilização moral em caso de violência.
Qualquer indivíduo que não esteja imbuído da convicção de superioridade pessoal
ou de um sentimento de propriedade sobre o outro, em geral alicerçados em
noções emboloradas de gêneros masculino e feminino, saberá reconhecer que
passou do limite e precisa de tratamento para não recorrer às vias de fato.
Essa é a doença da atualidade: uma tendência a se fazer de vítima das próprias
pulsões ou incapacidades e a brandi-las como álibis para o desempenho
antissocial. O corolário disso, na medicina, vem com a proliferação de
diagnósticos que estilhaçam numa miríade de transtornos o caroço duro da
infelicidade contemporânea.
MARCELO LEITE - jornalista de ciência e ambiente, autor de “A Ciência
Encantada de Jurema" (ed. Fósforo)