Permitências e oportunidades fazem de nós o que
somos
- Mais do que capacidades abstratas, permitências são características
concretas
- Permitências expandem o limite do possível, mas concretizá-las
depende de oportunidades
Por
muito tempo se discutiu se cada uma das características da vida, e da humana em
particular, seria determinada pela natureza do ser vivo ou pelo seu ambiente
–"nature" or "nurture", em inglês. A primeira se referia
sobretudo à genética, e a segunda, às influências do meio
em que o ser cresce e se comporta, às circunstâncias em que ele vive sua vida.
O
debate foi acirrado por uns tempos, e só fez piorar com as descobertas de genes
que influenciam comportamentos, como a preferência sexual.
Por um lado, uma
causa genética (ainda) é algo inevitável e um tanto aleatório, o que exculpa o
dono de suas características, sejam elas assim ou assado ou os dois, pois
ninguém escolhe as sensibilidades sexuais do cérebro com que nasce.
Por outro,
vários grupos se sentem diminuídos quando seu comportamento, seja hetero ou
homossexual, bi ou nenhuma das respostas acima, não é considerado sua escolha.
Note que o debate seria inócuo se o comportamento sexual consensual dos adultos
não fosse da conta de mais ninguém além dos envolvidos, como deveria ser.
Ajudou um pouco a neurociência entender que o que
somos, com raras exceções, depende não só de como nascemos mas também do que
fazemos com o que nos é inato, bem como da interação entre as duas coisas.
Mas
não resolveu; a pergunta apenas passou a ser quantitativa. Quanto de tal
comportamento é inato, quanto é aprendido?
Passei os últimos dois ou três anos revendo e
elaborando conceitos para uma série de livros didáticos e me dei conta de que
precisava de novos termos para entender e descrever como a vida se torna o que
é, tanto na formação de cada novo indivíduo quanto na mudança da vida ao longo
de gerações, o que chamamos de evolução. Cheguei ao seguinte:
Tudo o que existe está sujeito a duas limitações
fundamentais: as realidades (chamadas de "leis") da física, ditadas
pelas interações entre as partículas que nos constituem, e pelas trocas de
energia sem as quais nada acontece.
Por sobre esta base fundamental surge a
biologia, consequência de interações que geram complexidade autossustentada e
auto-organizada. Esta é a chave, pois a complexidade emergente tem, por
definição, novas propriedades que trazem novas possibilidades.
Estas novas
propriedades intrínsecas que abrem novas portas até então inexistentes, sempre
dentro das limitações fundamentais, são o que chamo de permitências.
Permitência é um conceito dinâmico, diferente de
natureza, por definição imutável. Temos a permitência de um cérebro, que abre a
porta para o comportamento flexível, e nascemos com certas permitências –mas
podemos expandi-las.
Vamos à escola e mudamos nosso cérebro: abrimos cada vez
mais portas para nós mesmos conforme aprendemos. Enquanto capacidades são
possibilidades abstratas, permitências são nossa realidade biológica, concreta
mas um tanto mutável, e as portas que ela abre.
Mas
permitências não valem de nada sem oportunidades, que vão da disponibilidade de
energia e nutrientes às circunstâncias para poder agir.
Muitas oportunidades
vêm do ambiente, mas outras tantas vêm das nossas próprias ações; podemos até
usar nossas permitências para criar oportunidades para nós mesmos, e usar essas
oportunidades para criar novas permitências.
Somos
dinâmicos e mutáveis, feitos de muito mais que "natureza e ambiente":
fazemos a nós mesmos de permitências e oportunidades.
SUZANA
HERCULANO-HOUZEL | bióloga e neurocientista da Universidade
Vanderbilt (EUA)