Mais da metade das mulheres que pesquisei se
aposentou da vida sexual
- Quantas mulheres fazem sexo sem desejo para não perder o parceiro?
- Depois de mais de três décadas de pesquisas sobre amor, sexo e
traição, aprendi que o mais importante é descobrir o que nos dá tesão na
alma
Em
2007, passei alguns meses na Alemanha dando palestras sobre "o corpo como
capital na cultura brasileira". Também fiz cerca de 50 entrevistas e
grupos de discussão com mulheres de mais de 50 anos.
O
que mais me surpreendeu foi o fato de que quase todas, inclusive as casadas,
afirmaram que não tinham mais vida sexual. Mais ainda, elas não demonstraram
que a ausência de sexo era um problema no
casamento. Ao contrário. Elas valorizavam a confiança, a intimidade e a
conversa que tinham com o parceiro como mais importantes do que o sexo.
Naquele
momento, vivendo em uma cultura que supervaloriza a vida sexual, não
compreendi a lógica conjugal das mulheres alemãs.
Minha visão mudou muito. Talvez porque, na minha
atual pesquisa de pós-doutorado sobre envelhecimento, autonomia e felicidade
com 100 brasileiras de mais de 50 anos, mais da metade afirmou que se aposentou
do sexo. Não necessariamente por falta de parceiro, mas por ausência de desejo
sexual.
Muitas atribuíram a culpa pela aposentadoria da
vida sexual à menopausa ou ao desgaste do relacionamento. Mas o que mais me
chamou a atenção é que, para cerca de um quarto das entrevistadas, a ausência de sexo no casamento era
considerada natural nessa fase da vida.
"Estou casada há 27 anos, já fiz muito sexo,
antes e durante meu casamento. Agora prefiro outros prazeres com meu marido. O
maior deles? Dar risadas e ficar juntinho assistindo a filmes e séries",
revelou uma psicóloga de 63 anos.
Para
ela, a supervalorização do sexo acaba criando frustrações e insatisfações
completamente desnecessárias.
"No meu consultório, todos os dias, aparece
uma mulher se sentindo fracassada por não querer mais transar com o marido. O
mais curioso é que ele também não quer, mas ela tem medo de perder o marido
para outra mulher. O problema não é a falta de libido, mas o medo de perder
quem ela ama".
O medo, segundo ela, é muito mais cultural do que
psicológico. É porque vivemos em uma cultura em que o lema é "sem tesão,
não há solução". No entanto, a psicóloga acredita que "tesão" é
muito mais amplo do que apenas o desejo sexual.
"Na hora em que nos libertamos dessa ditadura
do tesão, podemos enxergar o que realmente importa. O desejo pode se
transformar com o passar do tempo.
Não só porque ficamos mais velhas, mas
porque descobrimos outros prazeres na maturidade. Quantas mulheres continuam
fazendo sexo não por desejo, mas por medo de perder o parceiro?"
"Continuarei a ter prazer de conversar com
essa pessoa daqui a trinta anos?", a psicóloga citou a pergunta de
Nietzsche que Rubem Alves tanto repetia.
"Muita gente acaba com o casamento porque faz outra pergunta quase
impossível de responder: ‘Vou continuar a ter prazer de transar com essa pessoa
daqui a 30 anos?’ Eu prefiro fazer uma pergunta muito mais importante para a
minha felicidade: ‘Vou continuar a ter prazer de brincar e dar risadas com essa
pessoa daqui a 30 anos?’"
Hoje, entendo melhor as respostas das mulheres
alemãs, apesar das nossas diferenças culturais.
O que elas me ensinaram, e que
encontrei também em muitas brasileiras, é que, ao longo do tempo, o sexo pode
deixar de ser (ou nunca foi) o centro do prazer da vida conjugal.
Aos 73 anos, Rita Lee afirmou: "Velho não quer
trepar, velho quer ter tesão na alma". Depois de mais de três décadas de
pesquisas sobre amor, sexo e traição, aprendi que o mais importante é descobrir
o que nos dá "tesão na alma".
MIRIAN GOLDENBERG - antropóloga e professora da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, é autora de "A Invenção de uma Bela
Velhice"