Aquilo que se ouve no Congresso é constituído de
99% de ninharia e ignorância
- Organizando meu acervo de pesquisa, descobri livros grifados pelo
meu pai
- Ele partiu aos 68 anos. Ele faria 98 anos no dia 25 de dezembro
Desde
1º de dezembro estou organizando meu acervo de pesquisa, mexendo no meu
passado, descobrindo um tesouro que estava escondido nos meus armários.
No
dia 17 de dezembro, encontrei uma sacolinha de plástico com quatro livros. O
primeiro, "Nazareno", de Sholem Asch, não consegui nem abrir com medo
das folhas se esfarelarem nas minhas mãos.
No
segundo, "Kennedy Sem Lágrimas: o Homem por Baixo do Mito", de Tom
Wicker, de 1964, encontrei um grifo com caneta azul feito pelo meu pai.
"Não perguntem o que o nosso país pode fazer
por vocês. Perguntem o que vocês podem fazer pelo nosso país."
No terceiro, "Política e Coragem",
de John F. Kennedy, de 1964, encontrei muitos
grifos com a caneta azul do meu pai.
"Se uma sociedade livre não pode ajudar os
muitos que são pobres, não pode salvar os poucos que são ricos... A coragem é a
mais admirável virtude universal... Um homem faz o que deve, a despeito dos
obstáculos, perigos e pressões... Um homem de coragem faz uma maioria."
"O Presidente Kennedy gostava de citar Dante, quando dizia que ‘os lugares mais
quentes do inferno são reservados para aqueles que, em épocas de grande crise
moral, se mantêm na neutralidade’."
"Não há guerras inevitáveis. Se vier a guerra,
terá sido pelo fracasso da sabedoria humana."
"O povo não dá a menor importância ao que diz
o senador ou o representante comum. A razão de não se importar está em que o
povo sabe que aquilo que se ouve no Congresso é constituído de 99% de
ninharia, de ignorância e de demagogia em que não se pode confiar."
"Com exceções tão raras que são vistas como
milagres da natureza, os políticos democráticos de maior êxito são homens
inseguros e intimidados. Só avançam politicamente quando conciliam, acalmam,
subornam, seduzem, falseiam ou conseguem, de algum outro modo, manipular os
elementos exigentes e ameaçadores do seu eleitorado. A consideração decisiva
não é a de saber se a proposição é boa, mas se é popular —não se irá funcionar
bem e provar o próprio valor, mas se os eleitores que mais falam gostarão dela
imediatamente."
"Se o povo americano compreendesse mais
plenamente as pressões terríveis que desencorajam atos de coragem política,
que levam um senador a abandonar ou suplantar a própria consciência, talvez
fosse menor a sua crítica àqueles que tomam o atalho mais fácil —e maior a sua
apreciação por aqueles que se mostram capazes ainda de seguir o caminho da
coragem."
O último livro foi a maior surpresa: "Assim
Falava Zaratustra", de Nietzsche, edição de 1961. Meu pai leu e
grifou Zaratustra quando eu era uma menininha magrinha e triste de quatro anos.
Ao lado de quase todas as frases do livro, meu pai colocou estrelas, a letra A
e a nota 10. Nas páginas 22 e 29 do livro, modificando um pouco as ideias de
Nietzsche, ele escreveu:
"Prefiro pouca companhia, boa ou má; mas é
mister que venha e se vá no momento oportuno (bom para o sono)".
"O que anda em redor da chama da inveja [no
livro está ‘dos ciúmes’], acaba qual escorpião, por voltar contra si mesmo o
aguilhão envenenado."
Meu pai partiu aos 68 anos. Ele faria 98 anos no
dia 25 de dezembro. Estou chorando com saudade, emoção e tristeza, porque
descobri que, dentro daquele homem violento que me espancava e me
xingava de bosta, existia um pai que me ensinou a amar os livros e a riscar com
canetas azuis as lições mais importantes para a minha vida.
MIRIAM
GOLDENBERG
- antropóloga e professora da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, é autora de "A Invenção de uma Bela
Velhice"