Desafio da inteligência dita artificial pode acabar em desastre, mas pode ser grande bênção

Se um marciano chegasse hoje à Terra, poderia considerar boa parte dos humanos uma espécie subdesenvolvida, escravizada por uma pequena telinha.

Nossa atenção é o tempo todo capturada por gadgets, aplicativos e softwares criados com inteligência artificial suficiente para capturar a nossa atenção o tempo todo. Pesquisas das melhores universidades do mundo sistematicamente constatam que o uso intenso de nossos celulares está criando problemas sociais e de saúde profundos, afetando inclusive o desenvolvimento cognitivo das novas gerações.

Um ex-executivo do Google disse outro dia que gadgets e aplicativos foram desenhados com o espírito de caça-níqueis, chamando a nossa atenção o tempo todo para engordar o lucro das corporações que os detêm.

Tim Cook, o presidente-executivo da Apple, causou furor ao confessar que não deixaria seu sobrinho (ele não tem filhos) participar de redes sociais.

Nessa encruzilhada tecnológica, criamos coisas belíssimas que se transformam em armas horríveis de intolerância e destruição. E agora a inteligência artificial, a mãe de todos os saltos tecnológicos, está chegando nas ondas do 5G. Precisamos nos preparar.

Inteligência artificial combina um substantivo absolutamente positivo (inteligência) com um adjetivo quase sempre negativo (artificial). Toda tecnologia nova é de fato um pêndulo entre o positivo e o negativo, dependendo de seu uso.

Parece haver também no termo “artificial” uma vontade humana de manifestar superioridade de nossa inteligência sobre a nova inteligência que surge. Como usávamos “virtual” para coisas do mundo digital, quando o mundo digital já era parte enorme, crescente e determinante do mundo real.

Assim como a realidade dita virtual é cada vez mais parte da realidade, a inteligência dita artificial é cada vez mais parte das decisões de inteligência tomadas pela humanidade.

Deep Blue, o supercomputador da IBM, enfrentou —e derrotou— o supercampeão de xadrez Garry Kasparov já em 1997. Vários outros desafios como esse foram promovidos desde então.

Mas, daqui para a frente, esses embates não serão mais competições amistosas, desafios científicos, diversão nerd. A inteligência artificial cada vez mais competirá com você pelo seu próximo emprego.

Não se iluda. Humanos foram substituídos por máquinas em trabalhos manuais. Humanos serão substituídos por máquinas em trabalhos intelectuais.

O ser humano era o mestre indiscutível do aprendizado e da solução de problemas, dono de um intelecto colossal que nos deu e dá tantas maravilhas em diversos campos. Mas até onde podemos chegar? As máquinas e os softwares têm capacidades quase ilimitadas de avanço.

O desafio da inteligência dita artificial pode acabar em desastre, mas pode ser uma grande bênção. Provavelmente será um tanto de cada um, de acordo com o que fizermos dela.

O algoritmo das redes sociais, uma das mais impactantes aplicações atuais de inteligência artificial, alimenta quem pensa coisas erradas de coisas mais erradas ainda. É a inteligência espalhando ignorância, o que não é nada inteligente. Isso precisa mudar.

O físico Stephen Hawking previu que a inteligência artificial pode ser o pior ou o melhor acontecimento da história da humanidade: “Não sabemos se seremos infinitamente ajudados por ela, ou ignorados por ela, ou ultrapassados por ela, ou até mesmo destruídos por ela”.

Hawking, ao final, se disse otimista com o novo e ilimitado estoque de inteligência “artificial”. Meu sentimento também é esse. Mas, para isso, precisaremos de muita inteligência natural, humana e humanista.

 

Nizan Guanaes - empreendedor, fundador do Grupo ABC.

Fonte: coluna jornal FSP

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