Educação integral e felicidade, qual a relação
entre elas?
- À medida que cultivamos autoconhecimento, reconhecemos a riqueza
que carregamos
- A educação integral abre espaços para inserir novos conteúdos no
ensino
Nos últimos anos, os currículos escolares têm incorporado temas cada vez mais urgentes,
como educação digital, inclusão, educação
financeira e mudanças climáticas.
Esses conteúdos ampliam a visão de ensino ao
integrar dimensões cognitivas, físicas, socioemocionais, culturais,
tecnológicas e éticas, fortalecendo o conceito de educação integral.
Mais do
que transmitir conteúdos, essa abordagem valoriza
vínculos, cuidado com o corpo, habilidades para lidar com desafios e a
construção de projetos de vida.
Dentre todos esses temas, a educação socioemocional
ganhou destaque diante do crescimento de transtornos mentais entre crianças e
jovens.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 1 em cada 7 sete
adolescentes no mundo vive com algum transtorno mental, sendo ansiedade e
depressão, as principais causas de adoecimento nessa faixa etária, o que
reforça a urgência de um trabalho estruturado com as emoções desde cedo.
Nesse
cenário, os estudos sobre felicidade ganham força.
O professor Tal Ben-Shahar,
da Universidade de Harvard, destaca que a felicidade pode ser compreendida como
um mosaico formado por bem-estar físico, intelectual, emocional, relacional e
espiritual. O bem-estar físico envolve movimento, sono, alimentação equilibrada
e contato com a natureza.
O intelectual se desenvolve pela curiosidade e pelo
desejo de aprender. O relacional se fortalece nos vínculos afetivos. O
emocional é construído por meio da escuta, da empatia e da gratidão. Já o
espiritual surge do propósito e do sentido da vida.
Desenvolver
um pouco de cada um desses aspectos todos os dias amplia forças internas e a
capacidade de atravessar adversidades.
Um estudo na Universidade de Bristol,
2024, demonstrou que essa prática constante faz com que o cérebro efetivamente
aprenda, como ocorre com os exercícios acadêmicos ou físicos.
À
medida que cultivamos autoconhecimento, reconhecemos a riqueza que carregamos:
sentidos, talentos, sensações e camadas de nós mesmos que, muitas vezes,
desconhecemos.
Aprender sobre felicidade, representa uma evolução humana que
une o "penso, logo existo", de Descartes, com o "sinto, logo
existo", inspirado em Kierkegaard.
E
ao nos conectarmos uns aos outros, entendemos nosso pertencimento ao mundo,
caminhamos para uma inteligência não apenas emocional, mas socioemocional e
quem sabe, socioambiental.
A
educação integral abre espaços para inserir conteúdos que contribuam para
compor esse mosaico de bem-estar, junto aos outros novos temas.
Quando
planejada de maneira intencional e humanizada, ela permite que crianças e
jovens se desenvolvam como indivíduos capazes de liderar projetos relevantes e
participar de decisões, sem perder de vista a humanidade e o cuidado com o
planeta.
Que
eles sigam saudáveis, porque tiveram uma vida digna e aprenderam a investir, em
casa e na escola, no bem-estar físico, intelectual, emocional, relacional e
espiritual, como ensina o professor que se dedica ao estudo da felicidade. Isso
não significa ignorar os desafios do mundo, mas desenvolver autoconhecimento,
consciência social e responsabilidade ambiental para enfrentar problemas com
coragem, equilíbrio e competência.
Afinal, aprender é para a vida.
SILMARA CASADEI - professora, doutora e diretora de ensino e
inovações do Sistema Positivo