Apps não substituem bibliotecas, mas ajudam


Apps não substituem bibliotecas, mas ajudam

  • Governo federal lançou neste mês o aplicativo MEC Livros, uma biblioteca digital
  • Hábito de leitura precisa ser criado na infância ou na adolescência

A primeira biblioteca que frequentei foi a da escola. Nos sete anos que estudei nessa escola, até o fim do ensino médio, foram muitas horas explorando aqueles poucos corredores para fazer pesquisas, trabalhos escolares, buscar livros paradidáticos e descobrir novas leituras

Desde "O Auto da Compadecida", de Ariano Suassuna, e clássicos de Machado de Assis a "A Droga da Obediência", de Pedro Bandeira.

Nem todos os estudantes têm esse privilégio. Menos de quatro entre dez escolas brasileiras possuem em sua infraestrutura uma biblioteca, com marcantes diferenças regionais. 

Essa proporção chega a 56% se consideradas também as salas de leitura, que são um espaço de leitura e estudos com acervo mais restrito e não são geridas por um bibliotecário.

Fora da escola, a situação não é melhor. O número de bibliotecas públicas disponíveis para a população vem caindo ao longo dos anos e elas não estão presentes em todos os municípios. 

Mesmo entre aqueles que se declaram leitores, 60% não frequentam bibliotecas, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil de 2024. Metade dos estudantes também afirma não frequentar bibliotecas.

Como uma forma de incentivo à leitura, o Ministério da Educação lançou neste mês o aplicativo MEC Livros. A plataforma funciona como uma biblioteca digital gratuita e acessível via sistema do GovBR. 

O acervo de livros conta com milhares de obras de domínio público e literatura contemporânea nacional e internacional.

A iniciativa tem o objetivo claro de democratizar o acesso à leitura. É um recurso que estará disponível em qualquer lugar, inclusive naqueles com pouca ou nenhuma infraestrutura física de bibliotecas, usando o celular que já está na mão de todos o tempo todo. 

Na educação básica, pode facilitar a vida de professores, estudantes e famílias na execução das atividades pedagógicas que envolvem leitura.

Com isso, busca-se preencher uma lacuna que se reflete em desigualdade de acesso aos livros. Este é um passo importante no processo de democratização, mas não suficiente. 

A ausência do hábito de leitura na infância e na adolescência tende a persistir durante a vida adulta, o que traz prejuízos para o desenvolvimento. Há evidências de que a leitura de ficção melhora a cognição, estimula a criatividade e reduz o estresse, por exemplo.

Mesmo para quem cresceu como leitor assíduo, nem sempre o hábito se mantém. Isso ocorreu comigo: apesar de ter crescido lendo bastante, durante o ensino superior minhas leituras se limitavam ao que era obrigatório, técnico. 

Demorei muitos anos para reencontrar o prazer da literatura e reencaixá-lo na rotina. Algo que me ajudou nesse processo foi justamente o acesso facilitado a livros digitais.

A ideia de uma biblioteca digital pública não é exatamente pioneira. Alguns entes subnacionais já possuem seus próprios sistemas, como o BibliON, lançado pelo governo do estado de São Paulo em 2022.

Democratizar o acesso a livros é um passo importante para tornar o Brasil um país de leitores, mas o desafio vai além disso. O vício em telas em todas as faixas etárias afeta o poder de concentração, necessário para a leitura.

A formação de leitores não será efetiva sem uma alfabetização plena e o compromisso com uma educação de qualidade para todos.

PRISCILLA BACALHAU - doutora em economia, consultora de impacto social e pesquisadora do FGV EESP CLEAR,


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