Boas notícias na saúde podem ser uma lição para a
educação
- Organizações sociais fazem a diferença no atendimento
hospitalar
- Modelo em que a prioridade são planos de carreira e estabilidade do
servidor está esgotado
Organizações sociais (OS) são instituições não
lucrativas, de direito privado, dedicadas a políticas de impacto social, como
saúde, educação e meio ambiente. A lei 9.637/98 regula os contratos de gestão
das OS com o setor público.
Será publicado no prestigiado The Quarterly Journal
of Economics, um artigo de Maíra
Coube (Insper), Luiz Felipe Fontes (Insper) e Rudi Rocha (FGV/Eaesp) que
quantifica os ganhos de produtividade e de qualidade na gestão hospitalar por
organizações sociais de saúde (OSS) quando comparadas aos hospitais sob gestão
pública tradicional.
Os hospitais geridos por OSS são financiados por
recursos públicos, e os pagamentos são associados ao atingimento de metas. Não
há cobrança aos pacientes nem capital privado. O acesso é universal, como em
qualquer hospital do SUS. As OSS introduzem práticas gerenciais privadas e têm
mais flexibilidade de contratação e remuneração de pessoal.
Os hospitais que passaram a ser geridos por OSS
aumentaram em 40% as internações e em 14% a ocupação de leitos. O tempo médio
de internação caiu 8%. Não houve aumento de mortalidade de pacientes ou de
readmissões.
Manteve-se o perfil dos pacientes e de doenças atendidas, o que
indica que as OSS não fogem dos casos complexos. Nos municípios com maior
escassez de hospitais, a entrada das OSS levou a uma queda de mortalidade da
população de 6,4%.
As melhorias não vieram de investimentos em
tecnologia, mas do uso eficiente dos recursos disponíveis. Em especial, na
gestão de pessoal.
Os médicos com contrato de servidor público diminuíram e
cresceram outros tipos de contrato, como CLT, com o desempenho afetando a
remuneração. Também aumentou a contratação de médicos especialistas. Os de
menor produtividade foram substituídos, proporcionando aumento de 24% no número
de admissões por profissionais.
Houve dispersão nos resultados, com as OSS de melhor
governança e experiência obtendo resultados muito superiores à média, o que
indica que são elementos essenciais da estratégia a adequada seleção e o
monitoramento das OSS pelo poder público.
Os bons resultados na saúde apontam caminhos para
melhorar a educação básica, em que prevalece a provisão 100% estatal. Há alguns
poucos casos em que se terceirizou a manutenção da infraestrutura, mas o
serviço educacional continua na administração direta.
O estado de Goiás tentou
implementar OS de educação, em 2015, mas sucumbiu a ações do Ministério Público
e à resistência das corporações de servidores.
Assim como na saúde, a qualidade da educação
depende do provedor de serviço na ponta (médicos/professores). Eric Hanushek, com dados dos EUA,
mostra que a substituição de um professor de capacidade média
por um acima da média, durante quatro anos seguidos, é suficiente para eliminar
a diferença entre alunos de distintas rendas familiares ou para fechar o hiato
de aprendizado entre negros e brancos em um período de 3,5 a 5 anos.
Cada ano a
mais de atividade de um professor acima da média agrega centenas de milhares de
dólares à renda dos alunos ao longo da vida.
A flexibilidade das OS para premiar bons
professores e demitir os de mau desempenho seria instrumento-chave para tirar a
educação básica do atraso. Não é fórmula mágica. Precisaríamos de boas OS,
pois, como visto no caso da saúde, são as melhores que fazem a diferença.
Está esgotado o modelo atual em que a prioridade
são os planos de carreira e a estabilidade dos servidores, injetando-se cada
vez mais dinheiro no sistema, sem impacto nos indicadores de aprendizado.
MARCOS MENDES - pesquisador associado do Insper, é
organizador do livro 'Para não esquecer: políticas públicas que empobrecem o
Brasil'