Eu disse que não queria, mas ele fingiu que não me
ouviu
- Quando cheguei em casa, não aguentei e bebi
- Ele é amigo de muita gente que eu conheço e tem ótima fama; só hoje
entendo que foi um estupro
Ele
me chamou para ir ao quarto dele. Achei um pouco estranho, mas fui. Afinal, era
ele —o amigo de todo mundo. Uma pessoa genial e generosa, como os amigos e
conhecidos o descreviam.
Ele até exercia certo fascínio sobre mim. Como ele me
dava atenção, minha guarda baixou. Aquele era o ano em que eu beberia pela última vez até parar
definitivamente.
Ou seja, um ano em que eu estava na ativa, com muitas internações (duas até aquele
momento). Eu me sentia sozinha, não via amigos. Não porque as pessoas
estivessem brigadas comigo, mas porque eu não tinha força para procurar
ninguém.
Ficava na minha. Esquecida. E toda pequena atenção que me davam
ganhava magnitude.
Estávamos
no mesmo hotel porque participávamos de um grande evento. Eu trabalhando, ele
como convidado. Lembro-me de estar muito ansiosa, com medo de beber. No meu
quarto, fugia do frigobar.
Sabia que estava por um triz para virar todas as
bebidas que estavam ali. Na ocasião, não passava por nenhum tratamento para me ajudar na
recusa. Nunca tinha ido ao AA. Era somente eu e a minha força de vontade, e sei
que ela estava bamba.
Ele
também tinha problema com a bebida, mas estava afastado do vício já havia um
tempo. Talvez pudesse me ajudar, pensei. Vou lá e conversamos.
Em um momento,
juro que pensei isso. E fui. Cheguei à porta, toquei a campainha e ele me
recebeu sem camisa, sorrindo. Gelei. Era muita ingenuidade minha achar que não
tinha viés sexual? Nunca tínhamos sequer ficado. Dei um sorriso sem graça e ele
me puxou para perto. Ele é grande. Forte. Me apertou contra seu peito e disse:
que bom que você veio. Você está bem?
Respondi
que não, que estava com medo de beber. Quem sabe ele me ajudava? Que nada, logo
depois do começo da conversa, percebi que não tinha espaço para um diálogo.
Comecei
a ficar com medo, queria voltar para o meu quarto. Já não bastavam todos os
problemas com que eu tinha de lidar? Foi tudo então muito rápido. Ele foi me
levando para a cama, abriu a calça, começou a me beijar forte de um jeito ruim
e disse: vamos namorar!
Eu não queria, disse que preferia ir embora, que não
estava me sentindo bem. Ele fingiu que não ouviu ou não ouviu mesmo. Percebendo
que não tinha escapatória, eu fechei os olhos e senti um gosto amargo. Esperei
o fim.
Ali
na hora não me dei conta do que estava acontecendo comigo, nem mais tarde. Eu
saí correndo, entrei em um banheiro e fiquei ali, parada, muda. Não queria
voltar para meu quarto, com aquele minibar cheio de bebidas. Mas voltei. Não
bebi. Inventei uma história para meu chefe e larguei o trabalho. Fui para casa.
Em
casa, eu bebi. Não aguentei. Aquilo foi muito ruim, mas só hoje entendo que foi
um estupro. Eu disse não, ele seguiu. Ele é amigo de muita gente que eu conheço
e a fama dele é ótima. Fico aqui com meu silêncio. Das outras vezes que o vi,
fingi que nada tinha acontecido. Mas não tem como esquecer.
ALICE S. – blog Vida de
Alcoólatra