OBets em mortes já superam US$ 1 bilhão
- Com guerra no Irã, apostas passaram a ser operações militares,
incluindo a morte de lideranças políticas
- Só o mercado relacionado à 'saída do poder' de Ali Khamenei
movimentou US$ 194 milhões
No dia 7 de janeiro deste ano a secretária de
imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, encerrou abruptamente uma
conferência com jornalistas exatamente aos 64 minutos e 40 segundos.
Tudo
poderia passar despercebido se não houvesse uma aposta online de que a conferência de
imprensa duraria menos do que 65 minutos. No momento da interrupção, a
probabilidade de ultrapassar os 65 minutos era de 98%.
Como não aconteceu, quem apostou pelo
"não" ganhou 50 vezes o que tinha colocado.
O episódio viralizou, com acusações de que a
secretária agiu de propósito. Senadores começaram a debater se agentes públicos
não estariam enriquecendo a si e a seus conhecidos por meio dos mercados de
apostas.
Tudo isso é fichinha perto do que começou a
acontecer a seguir. Com a escalada de operações militares que
culminaram na guerra do Irã, as principais apostas deixaram de ser conferências de
imprensa.
Passaram a ser operações militares, incluindo a morte de lideranças
políticas. Os apostadores já movimentaram mais de US$ 1 bilhão.
Só o mercado relacionado à "saída do poder"
de Ali Khamenei movimentou US$ 194 milhões, com alguns
apostadores faturando no Polymarket mais de US$ 500 mil sozinhos com a morte do
líder do Irã.
Já a Kalshi voltou atrás e cancelou todas as
apostas relacionadas à morte de Khamenei, devolvendo o dinheiro aos
apostadores.
O que aumentou a indignação, considerando que a empresa havia
promovido intensamente os mercados relacionados a Khamenei em redes sociais
nos dias anteriores.
Além do flagrante problema moral de se apostar em
morte e em conflitos geopolíticos, há o problema dos incentivos econômicos para
a realização de operações militares.
Por exemplo, um apostador já acumulou mais
de 1 milhão de dólares "prevendo" dezenas de operações militares com taxa
de acerto próxima a 100%.
Seu padrão é sempre o mesmo: apostar algumas poucas
horas antes da operação ser realizada, o que incluiu "acertar" o
ataque surpresa conjunto dos EUA e Israel ao Irã em fevereiro de 2026.
O cúmulo dos mercados da morte são as apostas em
ataques nucleares e detonação nuclear feitas no início de março. A Polymarket, que é conhecida por não interferir
no conteúdo das apostas na plataforma, decidiu não só revogar como arquivar
totalmente os mercados "nucleares".
E claro, tudo isso desperta indignação e
preocupação com o vazamento de segredos institucionais e militares. Um militar
israelense já foi indiciado por apostar em operações secretas.
E há diversos
projetos de lei nos EUA para regular ou proibir mercados preditivos. Mas nenhum
parece avançar. Aparentemente, os interesses no enriquecimento com apostas já
estão entrincheirados.
A bola da vez agora é Cuba. Já são mais de 934
milhões de dólares apostados sobre o país. Por exemplo, a chance de ataque dos
EUA já está em 35% até dezembro de 2026. E a chance do presidente Miguel
Diaz-Canel "deixar" o poder até dezembro é de 64%. Tudo isso mostra o
avanço da "betificação" do mundo.
As bets não são só uma atividade
econômica. São uma condição existencial, que vai colonizando várias dimensões
da vida humana.
RONALDO
LEMOS - advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do
Rio de Janeiro