O dia em que matei meu pai
O álcool provocou
rupturas definitivas na minha vida, mas só posso seguir o jogo
Eram mais ou menos dez horas da manhã e
eu estava num táxi com a sacola cheia de
cerveja. Não ia conseguir ficar na
seca e decidi abrir uma.
O taxista imediatamente me olhou espantado. Está tudo
bem? Comecei a chorar e disse que meu pai tinha morrido.
Aquela desculpa (meu
pai estava muito bem, provavelmente trabalhando e nem de longe doente) me
pareceu plausível naquele momento da manhã em que eu abria uma garrafa.
Estava indo trabalhar e aquela mentira me
deixou livre para tomar quantas cervejas eu quisesse ao longo do trajeto.
Inventar um disparate daqueles dá a noção exata da
gravidade da doença. Eu falei com tanta naturalidade que hoje, escrevendo, me
dá um frio na espinha. Meu pai segue vivo, graças a Deus, e esse episódio
ocorreu há nove anos.
No trabalho, decidi sustentar aquela mentira, que
na minha cabeça me daria um passe livre para beber o dia inteiro.
Só não
calculei que os colegas procurariam meus amigos mais próximos para pedir ajuda
em relação a mim. Acionaram a Paula, e ela ligou para minha mãe.
Se meu pai
tivesse morrido, por que eu teria ido trabalhar? Estaria providenciando
enterro, velório etc. Em menos de cinco minutos minha mentira tinha sido
desmascarada.
Mas esses cinco minutos foram suficientes para a
história chegar aos ouvidos do Michel, meu melhor amigo. Ele sempre relevava
minhas loucuras porque nossa relação era muito maior e ele ainda por cima era
psicólogo.
Mas naquele ano eu tinha extrapolado. Já tinha contado tanta
mentira, já tinha dado tantos sustos que ele bloqueou meu número assim que
soube da falsa morte do meu pai.
Naquela manhã minha mãe foi me pegar no trabalho,
acompanhada dos meus irmãos. Ninguém teve coragem de dizer nada. Não que eu me
lembre: tinha começado a beber assim que acordei, por volta de umas seis. O
porre era imenso.
Não sei exatamente se eu queria chamar atenção,
como acreditava minha irmã, ou se era uma vítima querendo revanche, como
sustentava meu irmão mais velho.
Explico: meu pai é alcoólatra e
quando eu era pequena passei por algumas situações muito constrangedoras. Matar
meu pai era uma espécie de vingança. Acho que os dois estavam certos, eu queria
chamar a atenção e me vingar.
Família é família, né? Ninguém pode terminar comigo
como fez o Michel, que era o segundo querido que eu viria a perder por causa do
álcool. A primeira tinha sido a amiga que casou e não me convidou. Já falei
dela em outra coluna.
Uma sagitariana como eu preza muito os amigos e no
começo achei que eles voltariam a falar comigo. Existem ex-amigos, afinal de
contas? Existem.
Minhas mentiras me renderam muitas dores de cabeça
e algumas perdas. Michel nunca mais falou comigo.
Enquanto escrevia, fui
pesquisar o perfil dele nas redes e achei umas fotos nossas de dez anos atrás.
Estávamos felizes. Lembrei de uma viagem que fizemos para visitar os pais dele,
que me adoraram.
Voltar a esse dia da "morte" do meu pai
me fez chorar. Botei a música "Delicate", do Damien Rice, para
lembrar do Michel. A gente amava esse cantor.
Fico me perguntando se ele pensa
em mim ou se eu não existo mais para ele. Será que vale procurá-lo ou
simplesmente sigo em frente?
Com ele não teve nenhum nono passo (vocabulário do
AA: é o movimento para se redimir com pessoas que possam ter sido afetadas pelo
nosso alcoolismo). O álcool provocou rupturas definitivas na minha vida.
E eu
só posso seguir o jogo.
ALICE S. – blog Vida de Alcoólatra