A neurocientista vai ao dentista
- A estimulação simultânea de todos os sentidos não é nada agradável
- Dicas da neurociência tornam a experiência bem mais suportável
Vou
confessar: tinha pra lá de dez anos que eu não ia a um dentista, desde bem
antes de eu me mudar para os EUA, onde tratamentos de saúde são sabidamente
caros e as interações com os profissionais de saúde, manchadas pela ameaça de
processos litigiosos.
Nos zistêitis é raro se formar qualquer vínculo amistoso
com esses profissionais, que apenas seguem o roteiro de perguntas e comentários
previamente aprovados.
Por sorte encontrei um cardiologista por lá que parecia
se importar comigo, tanto que acabei deixando ele enfiar uns cabos no meu
coração, como já contei aqui.
Mas,
francamente, isso tudo é desculpa.
A verdade é que não tinha nenhum buraco
precisando de cuidado urgente, então arranjar um dentista foi ficando para
depois, porque é assim que o cérebro toma decisões: pesando valores emocionais
positivos e negativos, as chamadas "valências", do que a gente
considera fazer com os recursos limitados que tem.
Os dentistas que me perdoem,
mas eles sabem que ninguém anseia positivamente pela visita, exceto quando é
para ela aliviar um problema.
Aí
chega o fim do ano, quando a gente olha para trás e vê se ainda dá tempo de
ticar algum item abandonado da lista de afazeres do ano, e calhou de eu estar
no Rio, a dentista da família ter horário livre, então... fui.
Gostaria
de dizer inicialmente, em minha defesa, que ganhei parabéns por não ter nem
tártaro nem nada precisando de atenção, em mais de dez anos, além das quase
inevitáveis placas bacterianas.
E descobri que, no meio tempo, o ferrinho
maldito que arranhava dentes e descolava a gengiva foi substituído por uma
broca de ultrassom –santa tecnologia.
O
meu sistema nervoso, contudo, continua o mesmo, hipersensível a algumas coisas
e ignorante de outras.
A luz é forte demais, mas fechar os olhos é fácil e,
depois que a gente aceita a dança de brocas e ferrinhos esquisitos ao redor da
gente e dentro da boca, melhor nem ver, mesmo.
O barulho é irritante, o gosto e
cheiro são incessantes, o equilíbrio é constantemente posto à prova enquanto a
gente faz abdominal e alterna entre quase-deitado e dobrado ao lado para
cuspir, tem coisa tocando a língua e os dentes o tempo todo, tem água
acumulando na boca e espirrando na cara, e a propriocepção dos músculos
esgarçados mais o cansaço de manter a contração que segura a boca aberta são
incômodos sustentados.
E eu nem cheguei na dorzinha aguda de cutucarem a base dos
dentes, ricamente inervada, ao contrário da parte exposta, esmaltada e
felizmente insensível.
Mas
anos de terapia, autoexame e neurociência me ensinaram a consultar meu corpo e
fazer algo a respeito, em vez de ignorar tudo e sofrer as consequências depois.
A primeira coisa é atentar para os músculos todos do corpo se retesando em
ansiedade, o que só faz deixar o cérebro ainda mais tenso e aumentar a
percepção de dor e angústia.
Reconhecer os músculos tensos é a condição para
então relaxá-los voluntariamente, o que a gente ajuda controlando a respiração.
Daqui a pouco eles estão tensos de novo, mas é só repetir o processo.
O
mesmo dá para fazer com a dor. Talvez faça parte da minha esquisitice, mas é
possível brincar de essa-dor-não-é-minha e fingir que a dor é apenas algo que
se observa.
E se não der, o remédio existe: a outra santa, anestesia.
SUZANA
HERCULANO-HOUZEL - bióloga e neurocientista da
Universidade Vanderbilt (EUA)