A tecnologia e a humanidade


No mês em que completa dois anos, o blog DissertaçãoSobre Divulgação Científica entrevistou um dos fundadores e principais estudiosos da Ciência da Informação (CI). O pesquisador croata Tefko Saracevic, 83 anos, falou sobre a realidade, as tendências e as inquietações contemporâneas da CI, assim como a respeito da contribuição do Brasil para a área e a experiência dele como docente no país, entre outros assuntos.

Professor da Escola de Comunicação e Informação da Rutgers, Universidade Estadual de Nova Jersey, nos Estados Unidos, Saracevic é formado em engenharia elétrica, com mestrado e doutorado em CI. Os trabalhos dele contemplam os seguintes assuntos, entre outros: bibliotecas digitais e sistemas de recuperação da informação; noção de relevância na CI; aspectos relacionais entre humano e computador; análise de desempenho dos motores de busca na Web.

Confira a entrevista:

Quais são os desafios da Ciência da Informação na contemporaneidade e quais são as tendências de pesquisa na área?

Tefko Saracevic – Atualmente, a digitalização da vida e do mundo como um todo é um grande estímulo à CI, assim como para muitos outros campos. Tudo é global e está conectado. As constantes mudanças tecnológicas geram inquietações. Hoje, as mídias sociais predominam na comunicação e permitem a proliferação de notícias e informações em geral. Se por um lado as pessoas estão mais conectadas, por outro, estão mais impessoais e distantes. E tudo isso cria muitos e amplos desafios à prática profissional e à pesquisa na Ciência da Informação. As interrogações “como promover harmonia e ajustes neste cenário?” e “como manter-se relevante?” são itens-chave para a discussão.

A pesquisa em CI também está em transição, o que pode ser academicamente observado através de artigos apresentados em congressos e conferências, como por exemplo as reuniões anuais da Special Interest Group on Information Retrieval (Sigir), da Association forComputing Machinery (ACM) e da Association for Information Science and Technology (ASIST). A maioria, se não todos os papers, exploram aspectos atuais da interação que envolve as tecnologias, as pessoas e as informações.

É possível fazer uma definição específica sobre a essência da informação na atualidade?

T.S. – Todo campo, incluindo a Ciência da Informação, é definido por determinados problemas. A CI ainda está em desenvolvimento para lidar com muitas das suas questões tradicionais. Em geral, a Ciência da Informação se interessa por situações de explosão da informação e por aplicações tecnológicas para solucionar problemas. Essa explosão remete a uma veloz formação de considerável volume de dados ou informações, em qualquer formato. As técnicas e tecnologias se transformam continuamente, assim como são, e precisam ser, permanentes a abordagem de problemas gerais e o acompanhamento de soluções.

Especificamente, a CI lida com a coleta, o armazenamento, a recuperação e o uso da informação. Preocupa-se com o registro da informação e do conhecimento, com serviços e a utilização das tecnologias para facilitar a sua gerência. O campo compreende a efetiva comunicação da informação e objetos de informação, particularmente o registro de conhecimento em formas diversas, entre humanos em contextos sociais, organizacionais e individuais necessários para o uso da informação.

Historicamente, e também na presente era digital, há dois tópicos-chave a serem destacados: a necessidade humana e social de uso da informação; e as informações técnicas, dos sistemas e tecnologias para satisfazer aquela necessidade e prover a efetiva organização e a recuperação da informação. Resumindo, há dois mundos de interação: o da tecnologia e o da humanidade.

Quais são, hoje em dia, as principais relações interdisciplinares da CI?

T.S. – Todo campo científico está em crescimento interdisciplinarmente, incluindo a CI, cujos principais contatos são com a Ciência da Computação e a Biblioteconomia. Mas, há também relações relativamente novas, relevantes e crescentes com áreas que lidam com a avaliação e políticas de produtividade científica.

A Bibliometria é um segmento tradicional da CI, dedicando-se à quantificação de aspectos da produção e comunicação científicas. Na era digital, as análises bibliométricas são mais diversificadas, complexas e ricas. O desafio é cada vez maior para o desenvolvimento de novos métodos, para o aperfeiçoamento dos métodos atuais e tipos de análises.

A Altmetria tem emergido como resultado de restrições da Bibliometria e métodos cientométricos na avaliação das interações em ambientes digitais. É importante para aferir contribuições acadêmicas nesses novos meios, incluindo a blogosfera e a Web. Os dados e métodos altmétricos são aplicados em estudos de duas vertentes: comunicação acadêmica; e aplicação das mídias sociais em bibliotecas.

A dimensão humana e social da CI tem conseguido estabelecer um equilíbrio em relação à dimensão tecnológica?

T.S. – Sim e não. Dois exemplos, um geral e outro específico, ajudam a entender a minha visão. A questão social “como as pessoas buscam, usam e se relacionam com a informação” tem sido objeto de inúmeros estudos e experiências. Os resultados, com níveis diversos de êxito, são aplicados em projetos mais variados e eficientes de recuperação da informação e dos chamados sistemas de recomendação. Esses sistemas são bem diferentes do que os de há algumas décadas. A utilização dos sistemas pelos próprios usuários finais, em vez dos intermediários, significa mudanças muito acentuadas.

E aqui, o segundo exemplo. Nos Estados Unidos, através da National Science Foundation (NSF) e outras agências, o governo criou pesquisas em bibliotecas digitais, a partir de 1994, com o programa chamado Digital Library Initiatives (DLI). A partir de então, surge uma forte comunidade internacional de pesquisadores do tema, oriundos de campos variados, incluindo da CI. Cabe destacar, também, que o Google foi inicialmente desenvolvimento na Universidade de Stanford, com o apoio da NSF no próprio DLI.

Ambos os exemplos apresentados têm consideráveis componentes sociais e humanos. Entretanto, como a tecnologia está na vanguarda das mudanças, sempre haverá desequilíbrios.

Qual segmento da CI é pouco estudado e precisa de mais investimentos e atenção?

T.S. – A relevância, como principal ramo da CI, precisa ser mais explorada. Claro, trata-se de uma visão particular, pois lido com o tema há décadas. Mas, entendo que a ideia central da Ciência da Informação é a recuperação da relevância informacional, não apenas qualquer tipo de informação. Quanto mais nós compreendemos a relação dos humanos com a relevância, maior a chance de elaborarmos melhores e mais adequados sistemas de recuperação.

Quais os principais projetos de desenvolvimento da CI nos anos 1960-70 que foram concretizados e quais não foram?

T.S. – Os bancod de dados e o uso de computadores para a recuperação da informação foram determinantes para a expansão do campo naquele momento, assim como o desenvolvimento da indústria da informação como um todo. Porém, essa dimensão tecnológica contornou, de certa forma, os usuários e suas necessidades. Os avanços foram sendo apropriados, com a maioria dos mecanismos de busca tomados pelo conceito de propriedade. Técnicas de recuperação da informação eram bem conhecidas, mas esse caráter de particularidade limitou a utilização e o manejo dos motores de busca.

É possível caracterizarmos um mapa da pesquisa em CI pelo mundo? Há peculiaridades de acordo com as regiões?

T.S. – Podemos dizer que não há, por exemplo, uma física japonesa, americana ou russa. E também não há uma Ciência da Informação típica do Brasil ou da Alemanha. Porém, existem diferenças entre países quanto ao grau de produtividade e de orçamento para as pesquisas.

O portal SCImagoJournal & Country Rank inclui periódicos e indicadores científicos de alguns países, a partir da base de dados Scopus. Podemos, então, estabelecer rankings de países, com comparações de documentos publicados e citados. Não é possível classificarmos aspectos específicos da CI, mas sim categorizarmos a partir de recortes disciplinares mais amplos. Há um gráfico e uma tabela comparando resultados em ciências e humanidades de quatro países latino-americanos. A iniciativa apresenta índices de documentos publicados em periódicos de países ao longo dos anos, com dados obtidos a partir do Scopus, que abrange revistas científicas de campos variados da academia, como das ciências tradicionais, humanidades e tecnologias. Como é possível observar, o Brasil está muito bem posicionado na escala de citações, em comparação com a Argentina, a Colômbia e o México.

Quais oportunidades profissionais a CI oferece hoje em dia? O que o senhor diria aos jovens interessados em seguir carreira neste campo?

T.S. – Eu não disponho de dados específicos para falar com segurança sobre isso, mas as minhas experiências e observações demonstram que a CI é um campo atrativo. Todos os meus alunos, inclusive os atuais, conseguem encontrar emprego em segmentos diversos, variando os tipos de instituições, de funções e cargos.

Qual é o espaço e o papel da divulgação científica na CI?

T.S. – A questão remete às atividades do que hoje chamamos de information literacy. O National Forum onInformation Literacy, que reúne mais de 90 organizações nacionais e internacionais, define o termo como “competência para agir em casos de necessidades por busca de informação; ser capaz de identificar, localizar, avaliar e efetivamente utilizar a informação para solucionar questões e desafios”. A information literacy emerge para atuar no bem-estar social e econômico diante de uma sociedade cada vez mais complexa.

Há grandes ações voltadas para a educação e outros campos dedicados à promoção da information literacy. E a informação científica está no cerne dessa dinâmica, pois muitos pesquisadores e outros profissionais mantêm, de alguma forma, relações com aspectos desse conceito.

Há no Brasil críticas quanto a eventuais fragilidades teóricas e epistemológicas da CI. O que o senhor pensa sobre isso?

T.S. – Embora eu tenha feito algumas pesquisas sobre o assunto, não posso comentar com propriedade sem explora-lo mais profundamente em livros e artigos. Portanto, prefiro evitar esse tópico.

Quais são as contribuições brasileiras para a pesquisa em CI?

T.S. – São muito consideráveis. Há diversos exemplos, mas me atentarei para dois deles. O Brasil é líder em CI, não só na América Latina, mas também promove significativo impacto na comunidade internacional desta ciência. Isso pode ser facilmente observado, entre outros casos, através de periódicos importantes, como a revistaCiênciada Informação (do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia-IBICT), o Brazilian Journal of Information Science (da Universidade Estadual Paulista-Unesp) e Informação& Sociedade: Estudos (da Universidade Federal da Paraíba-UFPB). Esses periódicos têm relevância para a CI como um todo e representam as pesquisas, as discussões e os avanços contemporâneos em CI conduzidos pelo Brasil.

O outro caso do qual gostaria de comentar é o livro Modern Information Retrieval: The Concepts and Technology behindSearch (2ª edição), da ACM Press Books. Um dos autores é o chileno Ricardo Baeza-Yates, cientista da computação e atual vice-presidente do Yahoo! Research para a América Latina e Europa. Já Berthier Ribeiro-Neto, o outro autor da obra, é professor do departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e diretor de engenharia do Centro de Desenvolvimento e Pesquisa da Google no Brasil, localizado em Belo Horizonte (MG). No Google Scholar, o livro tem mais de 12.000 citações, enquanto que Baeza-Yates tem perto de 28.000 e Ribeiro-Neto acima de 15.000. Esses números são bastante relevantes e indicam o impacto da pesquisa realizada na América Latina e no Brasil.

Como foi o seu período de docência no Brasil? Como começaram as suas relações com o país?

T.S. – Inicialmente, eu recebi um convite para lecionar no Brasil no inverno de 1971-1972, para 16 estudantes no Programa de Pós-Graduação do então Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentação (IBBD – que adiante seria denominado como IBICT) . Naquele momento, o Instituto era dirigido por Celia Zaher, uma das responsáveis pela solidificação da CI no Brasil e na América Latina. Ela demonstrava muita competência, liderança, forte personalidade, visionarismo e clareza sobre a área, tanto internamente quanto fora do país. Algumas atuações dela foram em programa educativo focado nos avanços contemporâneos em CI, particularmente a recuperação da informação, múltiplos contatos internacionais, ações de indexação e bibliografia geradas por computador, entre outros exemplos.

Aquele ambiente era eletrizante, os estudantes eram impacientes e trabalhavam intensamente. Mais do que boa receptividade, eu fiz amigos, os quais mantenho ainda hoje. Em outras oportunidades, eu retornei ao IBICT e outras instituições para eventos e conferências. Fui muito feliz nas minhas estadias, conhecendo todo o Brasil. Tenho até um título de cidadão carioca honorário. De fato, guardo muito carinho e admiração pelo país. E os meus antigos alunos se saíram bem e tiveram progresso, o que me deixa muito, muito orgulhoso e feliz!

Quais foram as suas motivações para ingressar nessa carreira?

T.S. – A história é longa, mas vou tentar resumir. Eu vi um computador pela primeira vez no início dos anos 1960, chamado RCA 501, modelo que já faz parte de museu e cuja empresa não mais existe. Lembro-me como se fosse hoje. Era um dos primeiros computadores comerciais, muito grande, grotesco, com luzes piscando, ocupando uma sala inteira. A memória do equipamento era menor que a do meu atual relógio de pulso. Daí, eu me apaixonei por computadores. Mesmo concentrado nos estudos daquela fase acadêmica, eu mantinha a atração por aquelas máquinas.

No início dos anos 1960, quando eu já ia para a pós-graduação em Cleveland, Ohio, as universidades não dispunham de programa de informática, até porque a Ciência da Computação não existia. Porém, eu descobri o Center for Documentation and Communication Research (CDCR), ligado à School of Library Science, da Western Reserve University, uma antiga universidade privada que tinha computador e oferecia cursos em uma área que viria a se chamar ”recuperação da informação”. Passada a pós-graduação, eu trabalhei no CDCR, que teve atuação em sistemas de recuperação em metalurgia, sendo o primeiro sistema comercial de recuperação de informação nos Estados Unidos. O trabalho atendeu a demanda da associação America de Metais. Esse é o início de uma longa trajetória!

Há algum tema sobre o qual o senhor gostaria de comentar, mas deixamos de abordar na entrevista?

T.S. – Eu gostaria de falar mais sobre a educação, que é crítica em muitos campos científicos. A afirmação é lugar-comum, mas deve ser reforçada.

A educação em CI começou lentamente nos anos 1950-60. Dois modelos se tornaram referência ao longo dos anos. O primeiro deles é associado a programas de bibliotecas, cujo pioneirismo no Brasil é do IBICT. Tal padrão possui a qualidade de posicionar a educação dentro de uma estrutura de serviços, aproximando educação e prática profissional, dedicando atenção ao usuário, que lida com uma série de serviços e fontes diversas de informação. A falha é a carência de uma estrutura teórica mais ampla, assim como ensino do próprio sistema, como a compreensão de algoritmos. A maioria dos pesquisadores em comportamentos e informações humanos, centrados nos usuários, possuem afinidade com esse ambiente educacional. Dessa perspectiva surge a designação de Ciência da Informação.

O segundo modelo refere-se à Ciência da Computação, trabalhando com sistemas de recuperação da informação. As qualidades dele são: a) ter sólida base matemática em sua origem; b) ter vínculos diretos com a pesquisa científica. Os pontos fracos são: a) ignora aspectos mais amplos da CI, bem como outros campos das humanidades; b) desprestigia práticas profissionais de onde esses sistemas são utilizados. Trata-se de um modelo de sucesso com foco na computação, sem atenção especial à CI. Neste viés estão os pesquisadores com foco nas abordagens dos próprios sistemas.

Os dois contextos educacionais são completamente independentes um do outro. Nenhum deles consegue refletir a realidade do campo, ainda mais hoje, em que todos buscam informações e há inúmeras e múltiplas pesquisas sobre informação em todo o mundo. Porém, é importante os esforços para integrar esses modelos e gerar uma perspectiva mais ampla.

Bruno Lara -  jornalista (Petrópolis, RJ)

Fonte: site Observatório da Imprensa

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