Hora de voltar aos livros de colorir
- Mais do que controle e prazer, eles dão oportunidade para pensar na
vida
- Tempo para pensar é um bem escasso
nesses dias de rolar telas
Como
desgraça pouca é bobagem, eu resolvi não só escrever meus próprios livros
didáticos –acrescentando à angústia das dezenas de artigos científicos por
escrever– mas também ilustrá-los.
Não que meus dotes artísticos deem conta de
grandes coisas; o ponto é justamente que não dão, então minhas ilustrações são
simples e se atêm ao principal.
Isso é exatamente o que eu preciso, pois o
objetivo desses livros não é ensinar detalhes, e sim os princípios
fundamentais: os conceitos, definições e insights que nos livros tradicionais
ficam soterrados em montanhas de informação.
Minhas
ilustrações começam como desenhos no iPad que então precisam ser coloridos para
dar destaque ao assunto da vez.
O aplicativo simples que eu uso, Notability, me
permite colorir facilmente, mas com uma condição: cada cor em um espaço tem que
ser colorida de uma vez só, sem tirar o lápis da tela.
Como estou colorindo por
dentro de córtices cerebrais e cerebelares cheios de dobras, a tarefa por vezes
leva vários minutos ininterruptos, sem tirar nem lápis nem olhos da tela.
E
então entendi, finalmente, a mágica dos livros de colorir.
Sim, gostamos da sensação de controle sobre nossas
ações, da oportunidade de escolher qual cor vai aonde, do sentimento de
competência em manter a cor dentro das linhas (todos aqueles anos no jardim de
infância serviram para alguma coisa!).
Gostamos da sensação de tirar os lápis
coloridos da gaveta e vê-los espalhados na mesa, como se fôssemos artistas, e,
se não há lápis na gaveta, gostamos ainda mais de ter uma desculpa para ir à
papelaria comprá-los em lindas caixas e estojos para nós mesmos, e não para filhos
ou netos.
Sim, gostamos do prazer de fazer algo concreto
tomar vida com nossas mãos, ainda que o desenho não seja nosso. Para alguns,
confinados em suas gavetinhas em prédios de apartamentos, é a única
oportunidade de se admirar um jardim feito do próprio punho, colorido como a
gente quer.
O mundo digital abre várias portas, mas rouba nossas oportunidades
de produzir pilhas de páginas escritas à mão, virar páginas de papel, pendurar
nossa produção na parede, admirar o jardim que muda um pouquinho a cada dia.
Mas nada disso se compara ao prazer de se sentir
vivo e produzindo algo bonito, que só vem quando se tem a oportunidade de fazer
algo bonito com as próprias mãos. Encontrei essa oportunidade com meu primeiro
jardim e horta, depois com o crochê aprendido na pandemia.
E agora, colorindo meus próprios desenhos por necessidade
profissional, descobri esse pedaço que me faltava para entender o sucesso dos
livros de colorir.
A atividade pode parecer inútil ou, pior, um desperdício de
tempo, mas agora entendo que não é.
Pelo contrário, a atividade focada,
individual e intimista que ainda por cima produz resultados bonitos é um
convite à reflexão, à divagação, ao pensamento criativo ditado pelas nossas
próprias experiências, permitências, interesses e valores –muito diferente da
experiência de rolar telas com as experiências e valores dos outros.
Nos
dias de hoje, quando parece que se precisa sempre estar fazendo alguma coisa,
encontrar tempo protegido para pensar na vida e se sentir vivo é uma dádiva. E
se isso vem colorindo jardins e bichinhos, que seja. É muito melhor do que
rolar tela.
SUZANA HERCULANO-HOUZEL | bióloga
e neurocientista da Universidade Vanderbilt (EUA)