Por que você é único e a IA não é?
- Algoritmos de linguagem produzem palavras como a gente, mas nunca
serão gente
- Você é muito mais do que tudo o que você leu, escreveu e ouviu
Meus
colegas passaram meses elaborando uma maneira de usar um desses algoritmos de
linguagem comerciais para compilar, comparar, analisar e quantificar os resultados
de 25 artigos já publicados para contrastar com seu novo
estudo.
Conseguiram: o algoritmo genérico, treinado com o texto e as
imagens dos 25 artigos, produziu números e um gráfico com os resultados
comparados, como eles queriam. Foi um exercício notável, dado que teria sido
impossível meros três anos atrás.
Mas
durante toda sua apresentação sobre esse feito para nosso departamento, a
pergunta que não queria calar na minha cabeça era: para quê?
Nesses meses, o
doutorando encarregado do projeto poderia ter lido ele mesmo os 25 artigos,
entendido profundamente os achados de cada um e produzido uma síntese,
inclusive quantitativa, que teria acrescentado muito mais ao seu cérebro e seu
currículo do que "criei um algoritmo". Bom, pelo menos segundo minha
escala de valores.
Fiquei pensando então se um modelo de linguagem que tivesse lido
absolutamente tudo o que eu li na minha vida produziria textos como eu.
Absolutamente tudo, mesmo: dos anúncios de beira de estrada que eu,
recém-alfabetizada, lia orgulhosamente em voz alta de dentro do carro, a todos
os Monteiro Lobatos para crianças, uns 40
livros da Agatha Christie no inglês original,
depois tudo do Gabriel Garcia Marquéz, Isaac Asimov, e daí em diante autores e
assuntos cada vez mais variados, passando pelo biólogo Stephen J. Gould (que hoje eu sei que era
um cretino —"nunca encontre seus heróis pessoalmente", meu sábio
marido ensina) e milhares de artigos científicos.
E que tivesse também ouvido todos os programas de
rádio e entrevistas e podcasts que eu já ouvi, e assistido a todos as séries,
novelas e filmes da minha vida, começando com o traumatizante
"Bambi", primeiro filme que assisti no cinema, depois "A Noviça
Rebelde" e "O Corcel Negro", o favorito da minha mãe que ela nos
fez assistir de novo e de novo uma dúzia de vezes.
Essa seria a versão completa de um "Modelo de
Linguagem da Suzana", segundo os padrões atuais: um algoritmo treinado com
a grande maioria das minhas experiências com linguagem (como não sou lá muito
social, as palavras ouvidas de outras pessoas são relativamente poucas,
comparadas com o tanto que eu leio e ouço).
Esse algoritmo falaria como eu
falo, escreveria como eu escrevo, produziria o mesmo raciocínio, os mesmos
conteúdos?
Tenho certeza que não. Porque esse algoritmo não
sentou no colo de pai e mãe, não sentiu amor, alegria, frustração, raiva,
surpresa.
Não cresceu cercado de crianças mais velhas, não sofreu bullying
renitente pela irmã e os colegas da escola, não aprendeu a jogar cartas, tocar
piano, dançar, jogar bola e escalar o Pão de Açúcar na unha, não saiu de casa
para morar sozinho em outro país aos 19 anos de idade.
Não cresceu fascinado
com Jacques Cousteau e pensou em estudar oceanografia mas desistiu porque não
gostava da ideia de trabalhar embarcado.
Não ficou incomodado com as
inconsistências dos colegas que acreditam piamente que tudo o que é vivo serve
para alguma coisa e resolveu recomeçar do zero uma nova narrativa de como a
vida deu no que deu, e como alguns animais têm cérebros e outros não têm, e
está tudo bem.
Nós somos, cada um de nós, a soma de nossa biologia
individual mais todas as nossas ações e vivências. Eu sou única. Você
também. Nenhuma IA reproduz isso.
SUZANA HERCULANO-HOUZEL – bióloga e neurocientista da Universidade
Vanderbilt (EUA)