O cérebro decide antes de você ter consciência da decisão
O cérebro decide antes de você ter consciência
da decisão
Quando você acha que decidiu mover a mão, seu cérebro já
tinha começado a preparar o movimento. A intenção consciente chega centenas de
milissegundos atrasada. Em alguns casos, sete segundos atrasada.
O
Mecanismo
Em 1983, o neurofisiólogo Benjamin Libet pediu a
voluntários que dobrassem o pulso quando quisessem, sem plano e sem sinal
externo.
Eles deviam apenas observar um ponto girando num relógio e
relatar o instante exato em que sentiram a vontade de agir. Enquanto isso,
eletrodos no couro cabeludo mediam a atividade elétrica do cérebro.
O resultado virou um dos achados mais incômodos da
neurociência. Cerca de 350 milissegundos antes de a pessoa relatar ter
decidido, o cérebro já mostrava um sinal de preparação chamado potencial de
prontidão (em alemão, Bereitschaftspotential): uma onda lenta de atividade no
córtex motor que precede qualquer movimento voluntário.
A máquina começava a montar a ação antes de o dono dela
saber que ia agir.
Por décadas, críticos disseram que o método de Libet era
impreciso demais. Em 2008, John-Dylan Haynes e colegas refizeram o experimento
dentro de um aparelho de ressonância magnética funcional, que mapeia a
atividade de regiões inteiras do cérebro.
Pediram aos voluntários que escolhessem livremente apertar
um botão com a mão esquerda ou direita.
Lendo apenas o padrão de ativação no córtex frontopolar e
na área parietal, um classificador estatístico previu qual mão a pessoa
escolheria com acerto acima do acaso, até sete segundos antes de ela ter
consciência de ter decidido.
Por
que Importa
A leitura fácil é apocalíptica: o livre-arbítrio é uma
ilusão, você é um espectador do próprio cérebro. A leitura honesta é mais
interessante. O que os experimentos mostram é que a decisão se forma como um
processo, e a consciência entra perto do fim desse processo, não no começo.
Você ainda pode vetar a ação no último instante, e escolhas
complexas e deliberadas podem funcionar de forma diferente de apertar um botão
sem motivo. O que muda é a intuição de que você é a primeira causa de cada
gesto.
Boa parte do que você chama de vontade já estava em curso
quando a vontade apareceu.
A
Fonte
Libet, B., Gleason, C. A., Wright, E. W., & Pearl, D.
K. (1983). Time of conscious intention to act in relation to onset of cerebral
activity (readiness-potential).Brain, 106(3), 623-642.
Soon, C. S., Brass, M., Heinze, H. J., & Haynes, J. D.
(2008). Unconscious determinants of free decisions in the human brain.Nature
Neuroscience, 11(5), 543-545.
Peer-reviewed. O estudo de 2008 usou ressonância magnética
funcional e classificação por padrão (pattern classification) para prever a
escolha antes do relato consciente.