A República das Havaianas
- De repente, o calçado mais democrático virou símbolo de resistência
- Um trocadilho de quinta série virou tese de semiótica aplicada
Domingo, 21, não li notícias. Fez um dia lindo no Rio,
perfeito para celebrar a chegada do verão e o meu aniversário. Pois é, estou
ficando velha —para delírio de quem acha que "velha" é xingamento.
Mas, como sou uma véia contemporânea, depois da praia emendei no show do João Gomes. Saí de lá com aquela sensação gostosa de que
"a vida presta". Foi o que escrevi num post para agradecer amigos e
leitores que passaram por lá para me desejar felicidades.
Nem imaginei o perigo
que corria ao recorrer à frase dita por Fernanda Torres no premiado "Ainda Estou
Aqui", aquele mesmo que
"incomodou" a direita por mostrar o óbvio: sequestro, morte, tortura
na ditadura.
Voltei para a realidade como quem pisa num lego.
Saí de casa de Havaianas —hábito adquirido na cidade onde chinelo é
bem-vindo do supermercado ao restaurante— sem imaginar que cometia um ato
político.
Da padaria ao salão, fui
interpelada com a mesma pergunta: o que eu tinha achado da propaganda. De
repente, o calçado mais democrático, ops, virou símbolo de resistência.
Uma
piadinha bagaceira de fim de ano ganhou ares de mensagem cifrada e a publicidade
passou a ser lida como se estivéssemos de volta aos tempos de repressão, quando
frases precisavam ser decodificadas para escapar da censura.
As pessoas enlouqueceram. Um trocadilho de quinta série virou
tese de semiótica aplicada. Todo tipo de sabichão resolveu explicar "o que
a marca quis dizer". Pipocaram vídeos sobre mensagens subliminares,
códigos ocultos, intenções golpistas comunistas.
Teve loja em Santa
Catarina com liquidação a
R$ 1 "em protesto".
Vendeu tudo. Só rindo. As ações subiram. Só rindo. Um surto coletivo, um atestado de burrice coletiva num país afogado em
problemas reais. E não, cancelamento não é exclusividade da direita.
Gente
surtada existe em todo o espectro ideológico e a esquerda adora ver segundas
intenções onde só tem estratégia de venda.
Alguém acha que tem alguma chance de que 2026
seja melhor? O Brasil está na moda, mas politicamente não tem a menor chance de
dar certo.
MARILIZ PEREIRA JORGE - jornalista e roteirista