IA, mercado de trabalho e a chance de reinventar o Estado


IA, mercado de trabalho e a chance de reinventar o Estado

  • IA pode potencializar movimento de redução de despesas e melhoria em serviços
  • Brasil já ajudou a inventar o futuro do dinheiro, pode agora inventar o futuro digital do governo

No livro "Exponential", Azeem Azhar observa que grandes transformações tecnológicas raramente se propagam de forma linear. 

Elas interagem com sistemas sociais complexos, produzem efeitos em cadeia e costumam começar de forma localizada, para depois reorganizar mercados, instituições e hábitos.

Sabemos onde a inovação começa. Raramente sabemos onde ela termina. 

inteligência artificial parece ser precisamente esse tipo de mudança: rápida, transversal e capaz de alterar, ao mesmo tempo, a forma como trabalhamos e a forma como o Estado entrega valor à sociedade. 

É sob esses dois ângulos que vale observar o tema.

Há, com razão, apreensão sobre os efeitos da IA no mercado de trabalho. Mas o debate público ainda oscila entre o alarme e a fantasia. Na América Latina, o quadro tem nuances. 

Estudo conjunto da OIT (Organização Internacional do Trabalho) e do Banco Mundial mostra que entre 26% e 38% dos empregos da região estão expostos à IA generativa, mas apenas entre 2% e 5% correm risco de automação integral.

Em contrapartida, entre 8% e 14% dos postos podem registrar ganhos de produtividade. Trabalhos do Morgan Stanley também apontam aumento de produtividade nos setores mais expostos à IA nos Estados Unidos e sugerem que eventuais perdas de emprego podem ser temporárias. 

O quadro, portanto, parece combinar eliminação de postos de trabalho no curto prazo e aumento de eficiência no médio prazo. Nos Estados Unidos, estudos indicam desemprego crescente entre jovens recém-formados.

Também é importante notar que a exposição não está concentrada onde muitos imaginam. Na América Latina, os mais afetados tendem a ser trabalhadores urbanos, formais e mais escolarizados. 

A IA não pressiona apenas o trabalho manual ou de baixa renda. Ela incide sobre uma parte do emprego formal que a região levou décadas para construir. 

O maior risco não é perder vagas, mas atravessar uma transição desorganizada, na qual a tecnologia substitui tarefas antes que educação, infraestrutura e qualificação permitam capturar seus ganhos.

Larry Fink, da BlackRock, em sua carta anual de 2026 para investidores, sintetizou bem a dimensão distributiva do problema: tecnologias transformadoras criam valor extraordinário, mas esse valor tende a se concentrar em quem as constrói e controla. 

Se a produtividade cresce sem distribuir seus ganhos, a prosperidade se afasta da maior parte da sociedade, aprofundando desigualdades pré-existentes. 

A desigualdade crescente decorrente desse processo pode servir de combustível para maior polarização e para a expansão de programas compensatórios.

Para a América Latina, esse risco é agravado por uma combinação já conhecida de baixa produtividade e informalidade. 

A produtividade do trabalho na região é menos de 40% da média da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), e mais da metade dos trabalhadores ainda opera na informalidade. 

O FMI (Fundo Monetário Internacional) aponta, porém, um caminho: a IA pode elevar a produtividade do setor formal e reduzir a informalidade. O problema da região talvez não seja IA demais, mas IA de menos, adotada tarde e de forma desigual.

No Brasil, as oportunidades parecem mais amplas do que se supõe. Estudo do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) aponta que os setores com maior demanda por habilidades ligadas à IA incluem serviços profissionais, informação, manufatura e governo. 

O país possui ao menos 144 unidades de pesquisa dedicadas à IA, figurando entre os principais polos da área na América Latina. Mas é preciso transformar esse potencial em aplicação concreta. 

O diferencial competitivo migra da execução mecânica para a criatividade, para a capacidade de supervisionar sistemas inteligentes e transformar conhecimento em ação.

Há, porém, uma segunda dimensão do debate que segue subexplorada: a IA como instrumento de transformação do serviço público e de reequilíbrio fiscal pelo lado da eficiência. Essa agenda já ganhou escala internacional. 

Os Emirados Árabes Unidos anunciaram recentemente um novo modelo de governo pelo qual, em dois anos, 50% dos setores, serviços e operações governamentais deverão funcionar com IA agêntica, tornando o país o primeiro a operar nessa escala com sistemas autônomos. 

Em um mundo em que o déficit global permanece em 5% do PIB e a dívida pública global chegou a 95% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2025 —com o FMI projetando mais de 100% até o fim da década— o desafio central dos Estados modernos já não é apenas cortar gastos, mas gastar melhor. 

No Brasil, onde a compressão do espaço fiscal convive com demanda crescente por serviços públicos, essa equação é ainda mais urgente.

O Brasil já provou que pode realizar transformações relevantes quando acerta a estratégia. 

O Pix incorporou mais de 70 milhões de pessoas ao sistema financeiro formal e revolucionou o sistema de pagamentos a um custo marginal próximo de zero —por meio de uma infraestrutura pública digital bem desenhada. 

A IA pode replicar essa lógica em escala ainda maior. Há exemplos concretos, mas localizados. O Tesouro Nacional reduziu de 1.000 para 8 horas, com acurácia de 97%, uma classificação orçamentária realizada com redes neurais —ganho superior a 12.000%, reconhecido pelo FMI como referência. 

A Alice, que utiliza técnicas de mineração de texto e inteligência artificial, já evitou R$ 11,7 bilhões em contratos suspeitos, segundo a CGU (Controladoria-Geral da União). São resultados documentados de um Estado que começa a descobrir que a automação inteligente não apenas reduz custos, mas melhora entregas.

O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial prevê R$ 23 bilhões em investimentos até 2028. Se produzir sequer uma fração dos ganhos já observados nas iniciativas do Tesouro e da CGU, o retorno fiscal será considerável. 

Não se trata de gasto corrente, mas de investimento com retorno mensurável.

ROBERTO CAMPOS NETO - economista, foi presidente do Banco Central do Brasil por seis anos. 

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