Futebol e álcool: por que o 'beba com moderação' nem sempre funciona


Futebol e álcool: por que o 'beba com moderação' nem sempre funciona

  • Para quem já enfrentou a dependência, a recomendação de moderação soa como uma ilusão
  • Com propriedade, sei que há outras formas de viver e ver os jogos sem ficar enchendo a cara

Adoro assistir a jogos de futebol. Já fui ao estádio algumas vezes e tantas outras vejo pela televisão. Acho o espetáculo maravilhoso, sobretudo o da torcida.

Uma vez, quando estive em Buenos Aires, pude ver um jogo do Boca Juniors contra o San Lorenzo. Fiquei na torcida do San Lorenzo para ver de frente o espetáculo dos fanáticos e famosos torcedores do Boca. 

Cheguei cedo com meu namorado da época e ficamos aguardando a torcida uniformizada entrar. Fiquei pasma quando ouvi os bumbos e gritos anunciando a chegada deles. 

O jogo terminou em 3 a 0 para o San Lorenzo, mas nada conseguiu silenciar os perdedores. Eles cantavam freneticamente, enaltecendo seu time de coração como se estivessem vencendo.

O futebol é capaz de provocar grandes emoções —das mais belas às mais raivosas. Uma lei de 1996/97 em São Paulo decretou a proibição de bebidas alcoólicas nos estádios, a fim de diminuir a violência e tornar o ambiente mais amigável para crianças, mulheres e famílias em geral.

Na Copa do Mundo sediada no Brasil, em 2014, as bebidas eram liberadas. O clima, afinal, era mais ameno; as torcidas quase não entram em confronto e o espírito de festa predomina. 

Semana passada acompanhei o sorteio das chaves para a Copa do ano que vem. Era no meio da tarde, mas me programei para assistir e já ir imaginando as partidas —é o início de um bolão estratégico.

Acontece que, sempre que há um evento relacionado ao futebol, as propagandas de bebidas alcoólicas —em especial de cerveja— aparecem em peso, o que me incomoda. 

São sempre pessoas felizes, às vezes batendo uma bola, às vezes acompanhadas de algum grande jogador de futebol. 

Poderia ficar aqui enumerando todos que já fizeram campanha para bebidas alcoólicas, mas fugiria do principal: a frase final que todas as propagandas trazem. "Beba com moderação."

Essa frase me incomoda profundamente. Ninguém que tenha problema com bebida vai beber com moderação porque leu essa recomendação. 

Não existe "moderar" para quem perdeu o controle; existem apenas maneiras de beber — e, no caso dos dependentes, elas quase sempre implicam excesso. 

Eu mesma bebia muito e nunca me ative à frase. 

Hoje, em sobriedade, fico pensando se não haveria outras mensagens mais eficientes, como "Este produto causa dependência", escrita nos maços de cigarro. Ou ainda: "O uso deste produto pode gerar violência." E até algo mais direto: "A bebida mata".

Talvez nenhuma frase seja capaz de mudar sozinha o comportamento de alguém, mas reconhecer a gravidade do problema, em vez de suavizá-lo, já seria um começo. 

Afinal, as partidas de futebol, pelo menos em São Paulo, vêm acontecendo há tanto tempo sem bebida. Sou contra radicalismos e vislumbro um dia em que se possa beber nos estádios sem medo. 

O problema em si não está nos 90 e poucos minutos, mas sim na quantidade exacerbada que se bebe.

A saída e a entrada dos jogos são sempre regadas a muita bebida. A questão é a quantidade consumida e a doença sutil do alcoolismo. 

Com propriedade, sei que há outras formas de viver, ver os jogos sem ficar enchendo a cara.

ALICE S. – blog Vida de Alcóolatra

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