Seu nariz consegue distinguir um trilhão de cheiros diferentes
Laboratório
de olfato, Rockefeller University, Nova York
Por quase um século se
repetiu que o nariz humano distinguia dez mil cheiros. Um experimento refez a
conta e chegou a pelo menos um trilhão. O número antigo nunca tinha sido medido
de verdade, só estimado e copiado.
I.
O Mecanismo
O
personagem aqui é um sistema, não uma molécula. O nariz humano carrega cerca de
400 tipos diferentes de receptores olfativos, proteínas espalhadas no fundo das
narinas que se encaixam em pedaços de moléculas que flutuam no ar.
Cada
cheiro do mundo real, café, grama cortada, perfume, quase nunca é uma molécula
só: é uma mistura de dezenas de compostos ao mesmo tempo. Por isso o cérebro
não pergunta qual receptor disparou, e sim quais dispararam juntos.
É
aí que mora a explicação. Com 400 tipos de receptores, o número de combinações
possíveis não cresce somando, e sim multiplicando. Um aroma ativa um padrão de
receptores ligados e desligados, e o cérebro lê esse padrão como uma palavra
escrita num alfabeto de centenas de letras. Pequenas trocas na mistura mudam
quais receptores acendem, e o padrão inteiro vira outro cheiro.
Para
medir até onde ia essa capacidade, pesquisadores da Rockefeller University
montaram um teste direto. Eles prepararam misturas com 10, 20 ou 30 componentes
odorantes tiradas de um conjunto de 128 moléculas, e pediram a voluntários que
dissessem qual de três frascos era diferente dos outros dois. Quanto mais duas
misturas se sobrepunham, mais difícil era distinguir; quanto menos, mais fácil.
A
partir de quantas misturas as pessoas ainda conseguiam separar, os cientistas
calcularam quantos estímulos distintos o olfato humano discrimina no total. A
conta extrapolada chegou a pelo menos 1 trilhão. O velho número de 10 mil,
repetido em livros desde os anos 1920, não vinha de nenhum experimento sério:
era um chute antigo que ninguém tinha testado.
Não
é que o nariz humano seja ruim e a gente tenha subestimado um pouco. É que ele
é milhões de vezes mais fino do que se ensinava, e ninguém havia feito a
medição.
II.
Por que Importa
Esse
resultado realinha o olfato com os outros sentidos. A visão e a audição sempre
foram tratadas como sofisticadas, e o cheiro como o sentido pobre e animalesco
que perdemos pelo caminho. O trilhão mostra o contrário: em poder de
discriminação, o olfato disputa de igual para igual, ele só trabalha num código
que a gente não aprendeu a verbalizar.
O
experimento também é uma lição sobre números repetidos sem fonte. Por décadas,
o 10 mil passou de livro em livro como fato consagrado, sem que ninguém
apontasse o estudo que o provava, porque não havia. Bastou alguém medir de
verdade para o valor saltar oito ordens de grandeza. E há um lado prático
nisso.
Entender
que o cheiro é um código combinatório, e não uma lista de aromas fixos, muda
como se pensa perfumaria, indústria de alimentos e até diagnóstico médico, já
que perdas de olfato aparecem em várias doenças. O nariz que parecia o sentido
mais simples virou, da noite para o dia, um dos mais ricos em informação que o
corpo tem.
III.
A Fonte
Bushdid,
C., Magnasco, M. O., Vosshall, L. B., & Keller, A. (2014). Humans can
discriminate more than 1 trillion olfactory stimuli.Science, 343(6177),
1370-1372.
Peer-reviewed.
O estudo testou voluntários com misturas controladas de componentes odorantes,
mediu a partir de qual grau de sobreposição as misturas deixavam de ser
distinguíveis e extrapolou o resultado para estimar que o olfato humano
discrimina pelo menos 1 trilhão de estímulos diferentes, derrubando o antigo
número de cerca de 10 mil.